capítulo um: a fragmentação no início, parecia inofensivo. a cultura costumava se mover lentamente; estilos persistiam, a música ecoava, as ideias levavam tempo para se estabelecer. havia estações para as coisas: um verão, um álbum, uma manchete, uma piada. as coisas duravam o suficiente para te manter dentro delas. então o ritmo mudou. um novo som explodiu e morreu em quatro dias. uma frase inundou seu feed, tornou-se inevitável e foi esquecida antes que você a entendesse. estéticas inteiras apareceram, atingiram o auge e desapareceram entre o café da manhã e o pôr do sol. não era apenas o ritmo. era a sensação de que nada pertencia a ninguém mais. a linha do tempo tornou-se um liquidificador, estilos que antes definiam gerações tornaram-se matéria-prima para remixes infinitos. a nostalgia colapsou em estéticas desapegadas do contexto, despidas de memória e recicladas para ironia e alcance. as pessoas se ajustaram. a atenção se reconfigurou: aprendemos a viver no refresh, perseguindo o próximo pico, o próximo fragmento que proporcionasse uma sensação momentânea de vida. o que permanecia constante era o movimento sempre para frente, sempre mais rápido. a identidade seguiu o mesmo ritmo. você não era mais um só; você era dezenas de eus, sobrepostos em feeds, otimizando para diferentes públicos. online, você se tornou uma colagem costurada por algoritmos, curando performances para amigos, estranhos, empregadores e multidões invisíveis que você nunca encontraria. a experiência compartilhada se tornou mais fina. houve um tempo em que todos assistiam à mesma transmissão, liam a mesma primeira página, seguiam o mesmo calendário cultural. agora, as pessoas viviam dentro de feeds separados, cada um organizando o mundo de maneira diferente. cada pessoa via um mapa diferente, ouvia uma história diferente, acreditava em uma “verdade” diferente. você poderia sentar em uma sala com cinco amigos e perceber que não ocupava mais a mesma realidade. não era apenas desacordo. era divergência. o contexto estava ausente, as referências desconexas, as fundações incompatíveis. e à medida que o significado se fragmentava, o pertencimento se reorganizava. em vez de cultura de massa, havia microculturas. milhares delas, sobrepondo-se e colidindo, autorreferenciais e autossustentáveis. você pertencia menos a uma nação, uma geração ou uma cidade, e mais às linhas do tempo que habitava. a identidade tornou-se portátil, projetada em torno de qual ambiente te tornava mais legível. o tecido social não se rasgou tanto quanto se liquefez. sem âncoras compartilhadas, a coordenação tornou-se mais difícil. os antigos mecanismos de consenso, deliberação lenta, narrativa coletiva, mediadores de confiança desmoronaram sob o peso de perspectivas infinitas entregues a uma velocidade infinita. públicos pequenos construíram suas próprias linguagens, seus próprios rituais, seus próprios placares. havia um senso de brincadeira nisso, a princípio. as bordas da identidade se suavizaram. as pessoas podiam flutuar entre microculturas, experimentar pertencimento e inventar símbolos que faziam sentido apenas para os poucos que os compartilhavam. parecia leve, vivo, infinito. mas à medida que mais realidades emergiam, a distância entre elas se aprofundava. os pontos de referência que antes nos ancoravam à mesma história se dissolveram. você não podia mais assumir que seu vizinho via o que você via, duas pessoas podiam testemunhar o mesmo evento e voltar com verdades opostas. o símbolo de esperança de uma pessoa tornava-se o símbolo de traição de outra. a inocência desapareceu. narrativas se endureceram em paredes. pequenas fricções tornaram-se desacordos violentos. as pessoas se retiraram mais profundamente em suas bolhas, onde a linguagem era familiar e as histórias faziam sentido. a coordenação tornou-se mais difícil, depois mais rara, depois impossível. o que começou como abundância começou a parecer dissonância. o mundo parecia distante de si mesmo, os humanos pareciam distantes uns dos outros. nos fragmentamos de nossa verdade compartilhada. até o ethereum.
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